Caso Backer: diretora da cervejaria foi a hospital verificar rumores de Whatsapp

Há um mês, a cervejaria mineira Backer está no centro de investigações que mobilizam a polícia e autoridades de saúde. A contaminação das cervejas e da fábrica da empresa está associada à intoxicação de 31 pessoas pela substância química dietilenoglicol, sendo que seis delas morreram. Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, a diretora de marketing da cervejaria Backer, Paula Lebbos, conta que, assim que os rumores começaram a circular, foi a um hospital de BH para confirmar se havia alguém internado com esse quadro.

Ela também reconhece a possibilidade de erro interno como uma das hipóteses para a contaminação, mas afirma que aguarda resposta de órgãos públicos sobre investigação.

A empresa pioneira que ajudou a consolidar a reputação do mercado de cervejas artesanais em Minas está hoje lacrada, depois de crescer 50% nos últimos dois anos, com a compra de 20 novos tanques de 18 mil litros. A cervejaria operava com 70 tanques, capacidade de produção de 1,2 milhão de litros ao mês, 250 funcionários e faturamento mensal de R$ 5 milhões.

Criado para celebrar os 120 anos da capital mineira, o rótulo Belorizontina foi do sucesso à desconfiança com a contaminação.

Confira a entrevista completa, que também integra episódio do podcast O caso Backer, que o EM publica esta semana.

Como você soube da associação da Backer com a internação de pacientes em BH?

Tudo começou com uma notícia via WhatsApp que recebi do meu comercial logo depois do Natal. Tinha uma senhora falando em um grupo para não tomarem a Belorizontina, porque um parente dela tinha sido internado por conta da cerveja. Achei que fosse mentira, fake news. Como assim como uma cerveja que a gente cuida com tanto carinho? Era final de ano, a cerveja em pleno vapor. Porém, essa história foi crescendo. Moro perto do Hospital Biocor e, quatro dia depois, saí da minha casa, cheguei nesse hospital e perguntei com toda a discrição possível se essa pessoa estava internada. A pessoa da recepção disse que sim. Meu mundo desabou, porque vi que tinha alguma coisa errada e passaram milhares de coisas na minha cabeça. O que vou fazer? Como aconteceu? Todas as perguntas que as pessoas estavam fazendo. Coincidentemente, no outro dia em que estive lá, o Ministério da Agricultura esteve na minha empresa e é bom informar que, no ano passado, a Backer foi a empresa que mais foi fiscalizada durante o ano, justamente pelo fato desse crescimento muito rápido. A última em 18 de dezembro.

As mensagens de WhatsApp ganharam corpo no final de semana de 4 e 5 de janeiro, quando a Backer fez um post no Instagram dizendo que a história tinha sido uma mentira. Isso foi depois ou antes de você ir ao hospital?

Não tinha ido ao hospital ainda não.

Como é feito o controle de qualidade da cerveja? Existe um teste após a fabricação?

Para cada tanque de cerveja, existe processo de degustação desde do mosto (líquido antes da fermentação) até chegar ao processo final. Na maioria das vezes, faço questão de fazer essas degustações, analisando cor, aroma, sabor. Depois de envasada, a gente espera 72 horas para ela se estabilizar dentro da garrafa e faz uma nova degustação. Aí a gente retira algumas amostras para acompanhamento de lote.

Mas não é teste químico?

Fazemos todos os testes cobrados pelas autoridades em relação ao fermento, a gás carbônico, à própria água que vai ser utilizada no processo de cada cerveja, tudo aquilo que é necessário prezar pela qualidade. A gente tem internamente o nosso laboratório, um dos mais equipados.

Com esse grande crescimento da empresa, vocês passaram a usar algum outro agente químico no processo de produção?

A nossa empresa sempre usou o monoetilenoglicol. A Backer nunca comprou ou utilizou em nenhum processo nosso o dietilenoglicol. Como apareceu o dietilenoglicol na fábrica é um mistério e a gente espera que as autoridades nos deem esse retorno o mais rápido possível. A Backer está parada, preciso de resposta, assim como vocês, as pessoas estão doentes. A gente precisa que o Ministério da Agricultura e todas as autoridades nos dêem resposta. Nada está claro para a gente, em relação a quando, como e porque esse dietilenoglicol apareceu dentro das nossas cervejas e dentro da fábrica.*A Polícia Civil identificou que a indústria que fornecia o monoetilenoglicol à Backer adulterava o produto, acrescentando o dietilenoglicol. Ambas as substâncias são tóxicas e não podem estar presentes na bebida. Não se sabe como ocorreu a contaminação.

Vocês conduzem também um processo de apuração interna?

No começo fizemos análise para justamente tentar esclarecer para o nosso público o que estava acontecendo. Se tem ou não monoetilenoglicol e dietilenoglicol. Tentar dar respostas para o nosso público.

Como foi esse contato com o químico que produziu esses laudos que, por vezes, contrapunham laudos de autoridades?

A gente tem um laboratório interno e, periodicamente, utilizamos laboratórios externos para as nossas análises internas dos nossos produtos. Isso é corriqueiro dentro da cervejaria. A Backer sempre utilizou o laboratório do professor Bruno Botelho, que está localizado dentro da UFMG. Inicialmente, havia a suposição de que a contaminação tivesse ocorrido somente no tanque 10 e depois foi constatada a presença das substâncias tóxicas nos outros tanques…A gente tem laudo do próprio Ministério da Agricultura de tanques que não têm nem dietilenoglicol nem monoetilenoglicol. Estamos orçando e contratando empresas certificadas primeiro para retirar de dentro do chiller o líquido congelante dietilenoglicol. Como ele foi parar lá, a gente não sabe. A gente espera que as autoridades nos dêem resposta. Mas após o Ministério da Agricultura liberar a fábrica para envase, a gente vai retirar o líquido congelante e, em cada tanque, pedir um fiscal do Mapa que esteja também presente. Essa cerveja não vai ser envasada enquanto a gente não tiver certeza que esse tanque não tem nenhum tipo de rachadura, vazamento. Já contratamos a empresa que vai fazer o teste se aquele tanque realmente está apto para receber cerveja. A Backer não tem pressa de vender cerveja.

Qual é a hipótese mais forte sobre as causas de tudo isso?

Existem várias hipóteses. Há hipótese de sabotagem, existe hipótese de um erro interno. Um erro, não, alguma coisa que aconteceu internamente. Existe a hipótese de algo ter acontecido fora da Backer. Várias hipóteses. Mas não gostaria de ser leviana e acusar ninguém. Esse não é nosso objetivo.

A Backer está conduzindo alguma apuração interna mesmo com tanques lacrados?

Nossos tanques estão lacrados. Partes da fábrica, inclusive onde tem o chiller com líquido congelante, está travado. A Backer não pode fazer nada.

A Backer não pode conversar com os funcionários?

Podemos. Estamos pedindo e implorando para que isso aconteça o mais rápido possível.

Mas vocês não podem conversar com seus profissionais para entender o que pode ter acontecido de errado?

Sim. As respostas que talvez a gente tenha internamente só podem ser provadas com a abertura do tanque, com o acesso a nossos equipamentos. Para achar um problema no tanque, preciso tirar a cerveja para começar a fazer a averiguação. São 70 tanques, todos eles estão lacrados. Não posso fazer nada, inclusive tenho meio milhão de litros de cerveja que provavelmente estão estragando e vou ter mais esse prejuízo, mesmo aquelas cervejas que a gente já tem o laudo do próprio Ministério da Agricultura dizendo que não foi encontrado nenhum tipo de contaminante.

Há casos em que essas substâncias tóxicas foram usadas para adoçar vinhos por exemplo. Em algum momento vocês recorreram a uma substância diferente para chegar ao aroma e sabor?

A Backer nunca comprou dietilenoglicol. Temos um tanque de congelante onde a gente usa o monoetilenoglicol. As notas fiscais foram entregues para a Polícia Civil e para o Ministério da Agricultura. Ele é misturado com água e, a partir dali, passa por linhas e entra em volta dos tanques de fermentação e maturação. Em nenhum lugar do planeta houve um acidente com uma trinca. É um tanque com serpentina, uma chapa de inox dentro e fora, uma mangueira dentro. Que coincidência furar a mangueira e furar também a parede.

Essa água é usada depois para alguma finalidade? O Ministério da Agricultura chamou atenção para a quantidade de monoetilenoglicol comprado pela empresa.

A Backer comprou 20 tanques de 18 mil litros de cervejas durante esses dois anos. Claro que iria aumentar a compra de monoetilenoglicol.

Em algum momento este líquido é dispensado?

Essa reposição é feita a partir do momento que o monoetilenoglicol, que é um álcool, vai evaporando. A utilização dessa água no processo de um novo mosto não é praxe. É um tanque para líquido congelante. Aquilo ali a gente sabe que existe monoetilenoglicol. Não tem como haver contato com as cervejas.

As famílias das pessoas intoxicadas reclamam da falta de assistência por parte da cervejaria…

O que a gente tem de mais precioso são os nossos clientes. Como que a Backer ia fazer o nosso cliente adoecer, colocar alguma coisa contaminante dentro de algum produto nosso? Isso não faz sentido, é colocar em jogo 20 anos de trabalho e talvez o setor inteiro de cerveja artesanal. O que a gente pode fazer em relação às pessoas que dizem que estão doentes… Isso é um fato humanitário, é o que a Backer está fazendo sem antes saber se isso realmente é culpa da cervejaria.

As pessoas não dizem que estão doentes, as pessoas estão. E em alguns casos, testes de sangue apontam dietilenoglicol, inclusive o de uma das pessoas que morreu. Qual é a assistência imediata que a empresa dá para essas vítimas que inclusive chamam isso de envenenamento?

A gente sabe, sim, que o dietilenoglicol foi encontrado dentro das nossas cervejas e no sangue dessas pessoas que ficaram doentes. Mas hora nenhuma falou em quantitativo. A gente sabe por poucos estudos que existe dietilenoglicol em vários produtos, no queijo, no próprio vinho, em embalagens*. Talvez se eu fizer um teste de dietilenoglicol no meu sangue vai dar. O que a Backer está precisando e o que é necessário é que as autoridades divulguem a quantidade que existe dentro das nossas cervejas e dentro de outros produtos talvez e no sangue dessas pessoas. Qual foi a quantidade encontrada? A Backer não está se abstendo de nada. Pelo contrário, está fazendo aquilo que a gente pode fazer por essas pessoas. A gente criou um site de acolhimento, deixou uma linha de telefone separada para isso, temos uma equipe de psicólogos. Existe também um processos que a Backer não pode simplesmente chegar e ir até uma pessoa que está doente.

*O EM checou a informação com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que informou que não tem competência de fiscalizar o uso do dietilenoglicol.

Você se sente responsável por essas pessoas?

Eu me sinto responsável por essas pessoas, pelas pessoas que trabalham na Backer, pela família Backer. Me sinto responsável por todas as pessoas que entram no nosso Instagram nos dando força e pedindo que não desista e lute pelos sonhos.

Apareceram novos casos anteriores a essa janela de contaminação inicialmente investigada, do final de 2018 e início de 2019. Isso mudou o olhar para os processos internos da empresa?

A cerveja que a gente faz hoje é a mesma. Essa pergunta é o que eu preciso que as autoridades nos ajude a responder ao descobrir o porquê e como isso aconteceu com os nossos produtos.

A maioria das pessoas que estão internadas consumiram a cerveja na época na Black Friday e consumiram na época do Natal. Vocês consumiram a cerveja Belorizontina e continuam bebendo das cervejas da Backer mesmo depois do fechamento da fábrica?

A Belorizontina, especificamente, foi uma cerveja que estava presente na geladeiras e nas festas de final de ano. Foi a cerveja mais vendida e significa 55% da produção.

E vocês estão bebendo?

Não. Estou fazendo da mesma forma que as autoridades estão estão pedindo a todos. Mas a minha família, meu filhos tomam todas as cervejas da Backer e eu degusto todos conforme falei, no passo a passo de liberação dos lotes.

Fonte: msn.com

Portal Norte Mineiro

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